Por que é tão difícil mudar de opinião?
“A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os dois meios perfis não coincidiam.Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram a um lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em duas metades,
diferentes uma da outra.Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.”
O poema “Verdade” de Carlos Drumond de Andrade é um convite à reflexão sobre o que é a verdade, e sobre os fatores que sustentam a intensa polarização que vemos na sociedade (no Brasil e no mundo).
O escritor Americano Alvin Toffler já dizia, no final do século passado, que a sociedade se tornaria cada vez mais complexa e difícil de compreender, o que levaria o indivíduo pós-moderno a fugir do “pensar produtivo”, abrigando-se em polos radicais. O que oferece respostas fáceis e simplistas para aplacar a angústia existencial que o ser humano sente diante de uma realidade complexa e multifactual.
Vem da neurobiologia a noção de que a ativação cerebral é menor quando existe muita convicção sobre os fatos.
A convicção intensa leva a um “Bias” (viés) obviamente comportamental, mas também neural. Há, portanto, um impacto nos processos de interpretação das evidências da realidade, após o posicionamento inicial adotado pelo indivíduo. Leva à amplificação de evidências confirmatórias e à abolição ou “apagamento” de evidências que sugerem o contrário do que o indivíduo pensa.
Define-se como “Defaut Mode Network” o que ocorre quando a pessoa olha mais para si mesma do que para o mundo, não sendo capaz de identificar e reagir adequadamente às evidências contrárias às suas crenças.
Essa dificuldade relaciona-se com a noção de identidade construída desde a infância e ao longo da vida, através de fatores genéticos, constitucionais, sociais e ambientais (família). Redes neurais são acionadas para fornecer uma “blindagem” à identidade do indivíduo.
O ser humano sente-se ameaçado sempre que uma evidência contrária à estruturação de suas crenças e de sua personalidade emerge da realidade.
Assim, torna-se mais cômodo, que a pessoa viva em uma “bolha conceitual”, a despeito de seus efeitos deletérios sobre a evolução humana. O individuo tende a reverberar a visão míope e auto protetora e por vezes fantasiosa no ambiente social e interpessoal. E assim, pode-se inferir, surgem as “Fakes News”.
Portanto, convicções são sustentadas por “Biases” (vieses) que dificultam a construção do diálogo e de uma dialética adequada entre o individuo e a complexa realidade advinda da pós-modernidade. Há um temor de que a própria identidade desmorone como castelo de areia. O indivíduo percebe como ameaça a sua existência
Ao longo da vida ocorre um desenvolvimento evolucionário que depende da corticalização do cérebro e requer a experiencia cognitiva individual e consciente. Esse é a base da formação da identidade em etapas posteriores da vida, e que ele percebe como extremamente frágil (fragmentos de memória, filmes, músicas, experiencias interpessoais).
Desta forma, as evidências que corroboram o pensamento do ser humano ativam circuitos cerebrais de prazer e recompensa.
Por outro lado, evidências contrárias, ativam estruturas cerebrais subcorticais primitivas (como a Ínsula e a Amigdala) com consequentes emoções negativas como ameaças e nojo.
Na visão de Jack Panser em seu livro “A Arqueologia da Mente”, toda a experiencia nova possui dois componentes estressores: a imprevisibilidade e a incontrolabilidade. Uma orquestra neuroquímica é mobilizada para o enfrentamento desse estresse. Uma cascata de hormônios e neurotransmissores ativam um complexo sistema de circuitos cerebrais, que podem levar à hiper vigilância e à preferência por evitar os fatos contraditórios.
O cérebro é constantemente exigido a lidar com vários níveis de incertezas que podem levar a uma impossibilidade de transitar no território intermediário entre o “tudo e o nada, entre várias tonalidades de cinza situadas entre o preto e o branco. Isto é, dificuldade de transitar entre conceitos opostos e suas contradições. Estruturas cerebrais situadas no córtex pré-frontal, especialmente, responsáveis pelo pensar e pela racionalidade, passam a ser bastante demandadas.
Não é uma tarefa fácil sair de uma “bolha conceitual” e desafiar-se a uma mudança de posicionamento. Exige flexibilidade cognitiva e a separação objetiva entre fatos reais e do julgamento pessoal.
O movimento de aprender, desaprender e reaprender é muito necessário para a evolução da identidade do indivíduo e da própria espécie, devendo ser um alvo, uma busca constante ao longo da trajetória de vida.
Texto de autoria da Dra. Gilmara Bueno (médica psiquiatra – CRM 17011 | RQE 8812), CEO e idealizadora da plataforma de saúde mental Juntamente.
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Na data de 19/12/2021 fui tomada por uma tristeza súbita ao saber do falecimento do cantor lírico Carlos Marín. Carlos era um barítono espanhol, integrante do grupo musical de pop ópera IL Divo. Faleceu aos 53 anos vítima de complicações da Covid-19 em sua variante Delta (segundo notícias veiculadas). o que torna sua morte ainda mais injusta e difícil de aceitar.