Neste texto, a autora analisa o ultraconservadorismo existente, hoje, como produto
de um processo histórico, que emerge no Brasil contemporâneo a partir de fissuras
no Estado Democrático de Direito, com base no que alguns historiadores chamam de
uma “sociedade de ressentidos”, ao mesmo tempo que traça um paralelo com a
alegoria da caverna, do celebre filósofo grego.
“A nova vanguarda do mundo contemporâneo é a economia do conhecimento”
(Roberto Mangabeira Unger)
A construção da democracia no Brasil é uma tarefa árdua. É difícil conviver com a
diversidade, com a pluralidade de ideias e com as contradições inerentes ao sistema
democrático. Por isso, ideias totalitárias, sejam à direita ou à esquerda do espectro
ideológico, são sempre mais tentadoras. No presente artigo, tratarei da reconstrução
histórica do extremismo de Direita no Brasil, porém algumas reflexões se aplicam aos
extremos nos dois polos, à direita e à esquerda.
Faz-se necessária a educação política a partir dos ensinos Fundamental e Médio. É preciso
transmitir os princípios da Constituição de 1988, tais como a dignidade da pessoa humana,
valores sociais e de trabalho, a importância da livre iniciativa, do pluralismo político, a
construção de uma sociedade justa. É uma tarefa diária da sociedade que deve ser feita
sem panfletarismo político ideológico.
Guardadas as devidas diferenças e proporções, foi o que fez a Alemanha a partir de 1945.
Um duro e contundente enfrentamento do seu passado nazista a partir da educação
política. Assim, deveríamos enfrentar a realidade de que o Brasil é um país com tendências
autoritárias, que tem soluções democráticas episódicas.
Enquanto sociedade, cometemos o erro de achar que, a partir da redemocratização, da
Nova República, com a Constituição de 1988, a “Constituição Cidadã”, o extremismo teria
sido derrotado e que construiríamos instituições democráticas, com alternância no poder e
sólidos valores democráticos.
Porém, o tempo foi passando e os valores da Constituição de 1988 viraram discurso
político-eleitoral e não uma prática diária. Além disso, a Constituição sofreu muitas
alterações (algumas necessárias, outras não); no total, foram mais de 100 emendas.
O autoritarismo nunca foi derrotado, ficou apenas adormecido. Perpassa toda a história
política brasileira, confunde-se com a existência do Estado Brasileiro. Surgiu no Brasil
Império, a partir da abolição da escravidão, a qual ocorreu sem proporcionar aos negros
autonomia real, pois não foi feita a necessária modificação do regime de propriedade
fundiária vigente à época. Seguiu-se a ela uma reação dos escravocratas e das elites
provinciais que desejavam poder local (algo que a constituição de 1824 não lhes dava).
Dessa forma, foi proclamada a Primeira República, atualmente chamada de Velha
República, no ano seguinte à abolição, em 1889. Emerge sem a revolução democrática que
transformaria o negro em cidadão e, assim, mudaria a participação política. A Primeira
República surge, com forte presença dos proprietários de terra e do coronelismo. Esta é a
origem do ultraconservadorismo que vem desde o final do século 19. É como se a roda da
história não se movimentasse. Fatores de conservação são tão sólidos que não permitem a
hegemonia dos fatores de transformação. Seguiram-se as incursões autoritárias nos anos
30, por meio do Movimento Integralista (que encontrou no nazi-fascismo europeu um
terreno fértil), e posteriormente, nos anos 60, pelo Regime Militar durante duas décadas,
chegando às eleições de 2018, as quais ocorreram em meio a um Brasil confuso e
desorientado, com algumas semelhanças às eleições de 1989.
O ultraconservadorismo existente hoje é produto desse processo histórico. E emerge no
Brasil contemporâneo a partir de fissuras no Estado Democrático de Direito, com base no
que alguns historiadores chamam de uma “sociedade de ressentidos”. O ressentimento vem
das sucessivas frustrações com o processo político e eleitoral e também do fracasso das
diversas políticas econômicas implementadas desde a década de 80 (essa década é
chamada de “A década perdida”). Os esquemas de corrupção desvendados e postos em
evidência pela operação Lava-Jato também contribuíram para ampliar esse ressentimento.
Além disso, observamos uma crescente influência vinda dos Estados Unidos e, em grau
menor, de alguns países europeus, como a Polônia, Hungria e a Rússia. Novamente, há a
união entre o ambiente externo propício e as nossas raízes autoritárias profundas.
Outra questão relevante é que o extremismo não representa uma forma de liberdade de
expressão, mas sim uma tentativa de destruição do Estado Democrático de Direito, a partir
de seu interior, a partir do esgarçamento do seu próprio tecido. Ou seja, utiliza-se da
democracia para destruí-la. Portanto, deve ser contido pelos mecanismos institucionais
existentes no ordenamento democrático.
Cabe assinalar que tanto o extremismo de direita quanto o de esquerda têm em comum a
incapacidade de conviver com o pluralismo das ideias no campo democrático
(conservadoras ou progressistas). Mas é exatamente esse mecanismo de freios e
contrapesos que garante segurança para a existência do próprio sistema democrático.
A pandemia da covid-19 tornou-se um estímulo ao reacionarismo, à negação da ciência, ao
ódio pelo outro e às diferenças, a partir das crises econômica, sanitária e política
enfrentadas. Os mais diversos e obscuros interesses políticos se sobrepõem aos cuidados
com a vida e ao respeito pelos preceitos democráticos, aliando-se em uma cumplicidade
criminosa.
Percebe-se o caráter pluriclassista das ideias extremistas, o que significa que o
autoritarismo perpassa todas as camadas e classes sociais e expressa as ideias de parcela
significativa da sociedade brasileira.
Mas por que a sociedade brasileira tolera e coaduna com preceitos extremistas? Para
a compreensão desse fenômeno, utilizo-me, aqui, da Alegoria da Caverna, escrita por
Platão no livro VII da obra A República (217-347 a.C.). De forma resumida, o Mito da
Caverna descreve homens acorrentados, com os rostos voltados para o fundo de uma
caverna, que enxergam somente sombras projetadas pelo fogo que há atrás delas, sombras
que eles interpretam como a única realidade existente. Na caverna, os homens adquirem
importância na medida em que conseguem nomear as sombras projetadas e lembrar o
nome de cada uma delas. Mas um homem consegue libertar-se da caverna, após muito
esforço para vencer o medo, e descobre o mundo. Descobre o sol e a luz. Descobre que o
real está fora da caverna. Quando retorna para aquele espaço, percebe que não há sentido
em reconhecer as sombras, pois elas não são reais.
O Mito da Caverna, amplamente difundido, eternizou-se por estar eivado de significados
simbólicos que refletem o quão difícil é romper com o conhecido e partir em busca do
conhecimento e do novo. O longo e doloroso caminho que percorre o processo de
aprendizagem.
Hollywood utilizou-se da arte cinematográfica para representar o mito da caverna. O mais
importante deles é o “O Show de Truman” (Peter Weir, EUA, 1998), magistralmente
interpretado pelo ator Jim Carrey no papel central. Truman é uma personagem que vive em
uma realidade artificialmente construída por um diretor de cinema, um reality show. Truman
vivia como se aquele fosse o mundo real até seus 30 anos, apenas interpretando um papel
escrito para ele e relacionando-se com personagens criadas para a sua vida, em que o
estresse era artificialmente controlado. O desafio de Truman é vencer seu medo de água
para escapar daquele mundo, que o aprisionava, e buscar a outra margem, onde se
encontra o mundo real. Na cena final, Truman, podendo optar por permanecer no conforto
da realidade conhecida, opta por sair em direção ao novo, porém real. Tal qual o homem
que foge da caverna apesar de seus medos.
Gosto da música “Aurora Glade” (Aurora Clareira), de Nando Moura, abaixo traduzida, para
ilustrar esse drama existencial-filosófico, o doloroso processo sobre o qual se assenta o
homem, desde seu nascimento: “Em algum lugar na escuridão onde eu fico / Uma visão
do dia / Que é obrigado a voltar / Lembra-me que há mais na vida / Do que eu sou… /
Quão longe eu ainda vou vagar? / Nessas terras de sonhos quebrados / Quão longe
eu ainda vou vagar?… / Vem o tempo e eu saberei / Exatamente onde estou na vida / E
olhar além das sombras de ontem / Com as quais vou encontrar / Um significado para
minha alma..”
Na verdade, todos nós somos Truman, somos o homem que busca fugir da caverna. Essa
é a única opção que temos para ser autênticos. E apenas a vontade nos ajuda a superar o
medo do cenário que espera por nós. Assim, o ato de liberdade mais puro é o pensar.
Somos encorajados pela percepção de que, distanciando-nos, veremos as coisas melhor.
Quando nos acomodamos com o de sempre, apenas com o que nos foi ensinado e com o
que conhecemos, impedimos que a evolução aconteça (do ponto de vista individual e
coletivo). Como seres humanos, buscadores de segurança, vive em nós certa tendência a
aceitar costumes conhecidos. Nesse sentido, o extremismo oferece uma espécie de
proteção contra a confusão causada pelo pensar criativo e crítico. Nem a sociedade, nem a
família nos ensinam a olhar através de. E os sucessivos governos não priorizaram o
adequado investimento na Educação e na Cultura, chaves para escapar dessa armadilha.
A reconstrução da sociedade deverá ser acompanhada por uma reorientação da conduta de
vida individual. Devemos, para tanto, desafiar as ortodoxias e as práticas niilistas da
desconstrução pós-moderna. Podemos descobrir a singularidade do mundo, a realidade do
tempo, a possibilidade do novo e a profundidade e distinção do Eu.
Eu entendo que o desafio da nossa sociedade é justamente esse: reconhecer a inexorável
passagem do tempo e romper com os preceitos ideológicos que nos direcionam, há
décadas, no Brasil. Sair da caverna que habitamos desde os primórdios da vida
republicana. Como na vida de Truman, é muito confortável viver em um mundo com
significados conhecidos e destinos pré-estabelecidos; entretanto, o pensar de verdade tem
um poder libertador e transformador do homem e da sociedade, a despeito de todo o
sofrimento que pode ocorrer durante o processo de aquisição do conhecimento. A grande
recompensa é o prazer da descoberta, do crescimento evolutivo. Sem compromisso com o
erro. Às vezes, ficamos paralisados, preocupados em nomear sombras irreais, distraídos
com conceitos pré-estabelecidos que nos impedem de evoluir.
Romper paradigmas exige energia e determinação. Mas precisamos ver além das sombras
projetadas, atravessar o rio, buscar a outra margem. Olhar através do nosso contexto, em
um movimento de busca constante, essencial para nos manter ligados à vida.
Para o filósofo Roberto Mangabeira Unger, com quem inicio e finalizo este texto, “a
sociedade brasileira é suficientemente criativa e pulsante”. Tem potencial para superar essa
crise no campo democrático a partir “do conhecimento, da educação, da capacitação da
produtividade”, e assim conceber a ressignificação do chamado “Brasil Profundo”.