Você sabe qual é a importância da esperança no nosso dia a dia? É isso que vou explicar hoje, pois é dezembro, mês do Natal, época de renovação e paz. Mas também dela, a esperança. Esse é um tema que sempre me sensibiliza, e estará no centro das atenções nessa reta final de 2020, que trará o nosso primeiro Natal isolados e em pandemia.
Nem todo mundo sabe o que é esperança, sabia? Por isso vamos começar relembrando esse trecho de Enquanto Houver Sol, música dos Titãs. Veja só:
“Quando não houver Esperança
Quando não restar nem ilusão
Ainda há de haver Esperança
Em cada um de nós
Algo de uma criança
Enquanto Houver sol
Ainda haverá…”
Lembrou? Ótimo! Com essas palavras em mente, vamos à pergunta:
O que é a Esperança?
A palavra esperança é um conceito, ou seja, é um construto psicológico que as pessoas manifestam nas maneiras de ser, de estar e agir no mundo e pode ser observado nos modos de vida que os indivíduos levam. Estar cheio de esperança quer dizer também agir para que aquilo que é esperado se torne real.
Esperança não é a mesma coisa que esperar.
Pelo contrário, esperança é caminhar!
É uma disposição antropológica que sustenta o desejo de seguir em frente. Mas de onde surge a esperança? Vamos descobrir!
De Onde vem a Esperança?
A esperança surge, historicamente, na mitologia grega, que narra o seguinte:
Furioso com o titã Prometeu, que criou os homens e roubou o fogo dos deuses para dar a eles, Zeus criou então a primeira mulher. Seu nome era Pandora e a ela foram dados diversos dons. Sabedoria, beleza, bondade, paz, generosidade e saúde, por exemplo.
Prometeu ficou encantado com a beleza de Pandora e quis casar com ela de qualquer maneira. Como presente de casamento, Zeus deu à moça uma caixa, mas a advertiu de que jamais poderia abri-la. Depois de muito resistir, Pandora sucumbiu ao desejo de olhar dentro do presente. Coisas ruins saíram da caixa: a ganância, a inveja, o ódio, a fome, a dor, a doença, a pobreza, a guerra e a morte. Pandora rapidamente a fechou, deixando apenas uma coisa lá dentro. Então escutou uma voz chamando embaixo da tampa, suplicando por liberdade. Pandora abriu novamente a caixa que Zeus tanto advertiu que ela mantivesse fechada. O que havia restado lá dentro era a Esperança, que voou da caixa, tocando e curando as feridas criadas pelos males que fugiram ante.
Assim, embora Pandora tenha liberado dor e sofrimento no mundo, também permitiu que a esperança surgisse na humanidade. Daí o famoso ditado:
“A esperança é a última que morre”.
E agora que relembramos o mito do surgimento da esperança, fica a questão: como a esperança aparece na nossa rotina atualmente? E o mais importante nos dias de hoje e para os que virão com essa pandemia:
Qual a Função da Esperança?
Esperança é uma condição para que o encontro futuro seja uma novidade, porque existe uma projeção, uma espera, um movimento de busca que motiva o caminhar da pessoa em frente. E isso leva o ser-humano para além de suas capacidades de realização.
Ou seja: quem não espera, não está aberto ao encontro, pois suas certezas o satisfazem e são o suficiente para explicar o mundo no agora.
Porém, para quem pratica, com tempo e exercício a esperança se fortalece. Isso quer dizer, conforme as possibilidades passam a ser percebidas pela pessoa, ocorre uma mudança significativa na maneira pela qual o indivíduo olha para si e para os outros. Não por acaso, a esperança é uma das virtudes mais combatidas pela sociedade pós-moderna, completamente regida pela objetificação das relações e pela imediatez dos resultados.
Vítima da Modernidade Líquida
Modernidade Líquida é um termo amplamente difundido pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, e descreve uma sociedade em que a crescente participação da tecnologia e das redes nas relações humanas, assim como o culto da eficiência, liquefizeram os laços entre as pessoas. Segundo o autor, hoje dia fazemos amizades mais facilmente, mas também as desfazemos com a mesma facilidade. Esses modos de pensar e agir, exaltam cada vez mais a supervalorização do agora, daquilo que pode ser medido e desfrutado daqui a pouco, e não num futuro distante. Isso acaba deixando totalmente de lado os motores da esperança, que são o teor incompreensível e o mistério da busca contínua.
E o resultado desse processo, qual é?
Infelizmente, quando a motivação para buscar o desconhecido fica cada vez mais frágil, ficamos estagnados em problemas sem importância, superficiais. E assim, atrofiamos nossa capacidade de sonhar.
Qual a Solução?
Bom, a humanidade enfrenta agora um dilema por causa da pandemia de Covid-19. Ao mesmo tempo em que a esperança nunca foi tão necessária nas últimas décadas como é agora, também é muito difícil mantê-la viva. Afinal, como manter a esperança em meio a tantos mortos e doentes, frente a um vírus que apenas estamos começando a entender e que afeta diretamente as nossas relações afetivas ao nos manter afastados? Como, diante de toda essa configuração em que 2020 nos colocou, e que tanto agrava essa liquidez da modernidade que discutimos logo acima, pode sobreviver e se fortalecer a esperança?
Será que é possível? A minha resposta é:
Sim é possível!
E não só é possível, como segue sendo absolutamente necessário manter a esperança viva.
Mas onde vamos encontrar esperança em tempos de pandemia e coronavírus? Bom, antes de falar disso e encerrar a reflexão que trago hoje, proponho agora um trecho de Dias Melhores, do Jota Quest:
“Vivemos esperando dias melhores,
Dias de paz, dias a mais
Dias que não deixaremos para atrás
Vivemos esperando dias em que seremos
Melhores
Melhores no amor
Melhores na dor
Melhores em tudo
Vivemos esperando dias em que
Seremos para sempre
Vivemos esperando
Dias melhores pra sempre”
Pois é, a pessoa que perde a esperança, perde também, por consequência, a si mesma. Porque, por tudo que descrevi acima, sabemos hoje que a esperança é parte da essência das pessoas. O viver no hoje compreende a expectativa de ser amanhã. O próprio suicídio pode ser descrito como a vitória da dor sobre a esperança.
Como Encontrar a Esperança?
Então, como encontrar e manter fortalecida essa parte tão vital do nosso ser? Eu sugiro procurar pela esperança que acalanta, mas sem enganar, que motiva, mas sem iludir, que apoia, mas apoia em bases sólidas, sóbrias e construídas pela responsabilidade. É em cima desses critérios que você deve buscar a verdadeira esperança.
A pandemia de Covid-19 tem sido um laboratório de experiências de dor, isso é fato, mas também tem testado nossa resiliência e provado a esperança ainda está emergindo. Sem a ela, não há possibilidade de atravessar esse momento. Sem esse fio-guia, torna-se árduo adotar as duras medidas sanitárias instituídas, tais quais o isolamento, o distanciamento e o uso de máscaras. Em outras palavras, sem esperança não é possível cruzar esse período de privação da socialização, que é tão fundamental à existência humana.
Mas isso não é a mesma coisa que otimismo cego?
Não, é diferente de otimismo porque ele, tal qual a esperança, também é um construto psicológico. Só que o otimismo é a disposição para encarar as coisas pelo lado positivo e esperar sempre um desfecho favorável, mesmo em situações muito difíceis. O otimista é aquela pessoa que sai sem guarda-chuva, mesmo num dia nublado e cheio de trovoadas.
De outra forma, a esperança fala de itinerários: rotas para alcançar objetivos, e de foco dirigido, intenção e persistência – sem nunca deixar de levar em conta os dias chuvosos pela frente.
Aliás, recentes estudos da neurobiologia apontam que a esperança ativa o Córtex Orbito-Frontal, especialmente em sua porção ventral. Traduzindo: a esperança age no nosso cérebro na área que facilita a nossa capacidade de resolver problemas. Além disso, a esperança tem um papel fundamental na mediação das ligações da ansiedade com esse mesmo Córtex Orbito-Frontal. Portanto, quanto maior é a esperança, menor é a ansiedade e o medo.
E assim, O que era antes um conceito filosófico e existencial, agora é ciência e tem base neurobiológica solidamente estabelecida.
Esperança pode gerar frustração? Temos medo de ter esperança? É possível, mas cultivar a esperança é dar “condição à possibilidade” de que um mundo melhor aconteça, e para que possamos todos compartilhar da mesma incompreensível natureza: sermos humanos.
Hope is an important tool
Don’t be afraid to use it
(Esperança é uma importante ferramenta. Não tenha medo de usa-la.)
E você, concorda que a esperança tem um papel fundamental nos dias de hoje? Me conta mais nos comentários!