“O mundo, na verdade, lapida cérebros”
(André Palmini)
Nós somos fruto da resiliência da espécie. Estamos vivos graças à resiliência adquirida e compartilhada conosco desde a infância, de modo transgeracional e atávico. Enfrentamos 10.000 anos de privações e dificuldades. Estamos vendo mais longe porque temos a experiência de viver sobre os ombros daqueles que nos precederam.
Viver sob estresse é parte da experiência humana e de todos os seres vivos.
Mas afinal, o que é a Resiliência?
É a capacidade de não se deixar abater frente às dificuldades da vida, enfrentar obstáculos e encontrar caminhos, tolerar e lidar com o estresse de modo a evitar que, a partir daí, surjam sintomas físicos e/ou psíquicos.
A resiliência é um processo ativo, contínuo. Esforço de funções adaptativas do corpo e do cérebro, que vão se estruturando ao longo do desenvolvimento do indivíduo. Não se relaciona apenas ao enfrentamento de grandes traumas, mas também às dificuldades do dia a dia.
Entretanto, a construção da Resiliência não é um processo inócuo. Deixa marcas e cicatrizes que se traduzem no próprio comportamento da pessoa, no seu modo de ser (sem significar, necessariamente, o desenvolvimento de sintomas). Há sofrimento e dor no caminho. O estresse tem que estar presente. É um treinamento que possibilita o enfrentamento do estresse subsequente.
Os indivíduos que constroem vínculos ao longo do caminho, os que usam habilidades como capacidade de reflexão, construção de estratégias de enfrentamento e de resolução de problemas e os que possuem temperamento menos reativo tendem a se sair melhor. Muito importante é o afeto e a disponibilidade dos familiares e amigos.
A resiliência contribui para a auto regulação e o autocontrole, que significa modular, adequar emoções, pensamentos e/ou comportamentos. Não temos controle sobre a ocorrência ou não do estresse, mas podemos controlar nossa reação frente a ele. Para isso, é essencial a inserção progressiva do estresse ao longo da vida. Essa exposição permite o controle do medo. Não significa não ter medo, mas enfrentá-lo. É necessário tolerar e entrar em contato com a sensação subjetiva do medo advinda do enfrentamento de situações aversivas. Quanto maior é a resiliência, maior é o autocontrole. Atitudes continuamente evitativas diante da vida, constantemente fugindo de situações adversas, são contraproducentes para o desenvolvimento emocional e biológico.
Com a construção da resiliência, surge o espaço para a ressignificação da vida, para a reavaliação, reinterpretação e aceitação dos fatos que não podem ser modificados. Reinterpretar o significado negativo do evento da vida leva a adequar a resposta emocional diante dele. Reavaliar as situações, de modo regular e frequente, auxilia na eliminação de algumas memórias e na consolidação de outras, o que também contribui para o aumento do controle da emoção.
Os estudos da neurobiologia da resiliência são relativamente recentes, resultam dos últimos 20 anos.
Deles nos vem o conhecimento de que o Stress intermitente ativa uma região específica do cérebro, o córtex pré-frontal, que permite a regulação da vigilância e, por conseguinte, da resiliência.
A conhecida plasticidade cerebral é um evento biológico inevitável O cérebro é plástico e está constantemente sendo lapidado na sua interação com o ambiente. O que resulta desta plasticidade pode ser bom ou ruim a depender da qualidade e da intensidade do estímulo e da carga genética do indivíduo. A plasticidade cerebral confere uma ligação entre o cérebro e o ambiente. A possibilidade das experiências da vida mudarem a forma como nossos gens se manifestam ao longo da vida e como são regulados já está bem comprovada.
“A vida é capaz de moldar o cérebro, tal qual um escultor molda sua escultura”.
Quando um evento estressor é muito intenso, podem ocorrer mudanças bruscas, dependendo da vulnerabilidade de cada um. Pois o esforço excessivo do organismo para manter um estado de equilíbrio interno – necessário para a nossa sobrevivência – pode resultar em toxicidade inflamatória e na consequente produção de sintomas físicos e/ou psíquicos.
É bastante conhecido o fato, por exemplo, de que o stress pode diminuir a imunidade. Quando ficamos muito estressados não é raro ficarmos gripados, ou adquirirmos alguma infecção.
Algumas estratégias de coping (lidar) o estresse, tais como o abuso de álcool, o uso de drogas, e o consumo exagerado de alimentos ricos em carboidratos, não se mostram eficientes para a almejada resiliência. Ao contrário, são sintomas resultantes do enfrentamento, que levam a outros sintomas e ao adoecimento. Por exemplo, a excessiva ingestão de alimentos calóricos pode levar à obesidade que pode levar ao surgimento de diabetes, aumento da pressão arterial etc. As recomendações médicas de que se pratique atividade física, se tenha uma boa noite de sono e uma alimentação saudável, em última análise, são o direcionamento à busca por aumentar a resiliência.
As ferramentas utilizadas pela psiquiatria, como a psicofarmacologia, a psicoterapia, podem ser vistas como tentativas de ajudar na busca por resiliência, para que pessoas passem por momentos difíceis com menor vulnerabilidade a doenças como Depressão e Ansiedade.
As ações médicas sobre a doença são, em síntese, intervenções para reduzir a vulnerabilidade e aumentar a resiliência.
Interessante observar que, ao longo da pandemia da Covid-19, produziu-se um intenso stress coletivo. Após algum tempo, pode-se perceber nitidamente que as pessoas que conseguiram lidar com o impacto físico e emocional do estresse de modo mais ativo apresentaram-se também mais resilientes e menos sintomáticas.
A colega Fernanda Krieger, em recente evento científico, bem lembrou do filme O Mágico de Oz, produção da MGM de 1939, como excelente metáfora para a resiliência. Nele, a personagem central, Dorothy, uma garota de 11 anos, após um ciclone arrastar sua casa, cai no mundo de Oz e caminha por ela na Yellow Brick Road (estrada dos tijolos amarelos). Está em busca do Mágico de Oz, o único que poderia ajudá-la voltar para casa. A estrada é um caminho tenso, cheio de dúvidas, medos e perigos, mas no qual a menina faz amizades (com o homem de lata, o leão e o espantalho) e com isso constrói uma rede social de apoio para o enfrentamento do percurso. Ao final dele, Dorothy encontra o Mágico de Oz e constata que ele não é mágico e que nada pode fazer para ajudá-la a retornar para casa. A bruxa boa, que estivera acompanhando Dorothy ao longo do caminho, aparece e diz que, o tempo todo, a solução esteve com a própria Dorothy. Para retornar a sua casa, bastava que ela batesse seus sapatinhos vermelhos. Espantada, Dorothy questiona: “porque não me disse isso antes?”, e a bruxa boa responde: “porque você não iria acreditar em mim. Foi necessário que você percorresse todo o caminho para acreditar em sua própria capacidade”.
A Bruxa boa pode representar o médico ou o terapeuta, que acompanha seu paciente procurando instrumentalizá-lo em direção à aquisição de Resiliência. Porém sem interferir no percurso, no caminho que o paciente tem que percorrer. Esse é um encontro do paciente com seu próprio destino, com sua história, com sua própria Yellow Brick Road, e deve ser inexoravelmente respeitado.
A resultante dessa equação em busca da resiliência é: “Eu posso contar comigo”.
A solução para os problemas está sempre em nós mesmos e cada um tem a sua própria Yellow Brick Road (estrada dos tijolos amarelos) para percorrer.
Então, vamos vencer o medo?