A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida “
( Vinicius de Moraes)

Nossos ancestrais viviam em grupos para a própria sobrevivência. Viver em um coletivo permitia compartilhar alimentos e a carga de trabalho, proteger se mutuamente diante dos perigos do meio ambiente. Esta necessidade arraigou se em nosso cérebro e agora temos integrada a necessidade de pertencimento.

Sendo assim , ser excluído de forma sistemática causa uma falha de integração que leva à busca desesperada por espaço social , por aceitação mesmo que seja em grupos tóxicos. A necessidade de pertencimento, levada a um extremo, explica o fenômeno que ocorre também em grupos terroristas ou grupos delinquentes.

Um exemplo positivo desta forma de ser gregária da humanidade pode ser encontrado nos grupos terapêuticos como Alcoólicos Anônimos e Obesosos Anônimos .

Podemos apontar como consequências da exclusão social a longo prazo , sentimentos crônicos de rejeição , diminuição da auto estima , depressão , ansiedade atrofia cognitiva ( evidenciada pela dificuldade em expressar sentimentos e pensamentos ), sentimentos de solidão e até mesmo ideias de suicídio . Isso é especialmente relevante na Adolescência.

Com a Pandemia da Covid 19 e suas consequentes medidas de isolamento social , distanciamento e uso de máscara, houve um verdadeiro sequestro emocional da população. Este cenário despertou respostas emocionais não funcionais, pois o cérebro ressentiu se da mudança drástica de rotina e das restrições impostas ao convívio social.

Por definição, solidão é um sentimento universal que afeta todas as pessoas, em qualquer idade, em algum momento da vida… Pode ser transitório ou crônico. Inclui sentimentos de angústia acerca da falta de conexão ou comunicação com outros seres humanos .Pode envolver questões como a morte de um ente querido, separações / rupturas em relacionamentos, interações com o ambiente não satisfatórias e não validastes.

O tema da solidão há séculos tem sido estudado nas mais variadas áreas das ciências. Aristoteles em 384 a. c. dizia : “ O homem é um ser social “ . Freud em “ O mal estar da civilização “ ( 1930 ) ,dizia que há uma dicotomia entre o indivíduo e a civilização uma vez que , para o bem da civilização , a mesma deveria reprimir os impulsos agressivos e sexuais do homem .Para Freud , o mal estar da civilização é o mal estar dos laços afetivos. Já o psicanalista Pós Freudiano Lacan nos diz que o sintoma da solidão é favorecedor do vínculo social . Para Bassols , a solidão é um “ feeling “ ou um afeto ligado a angústia frente à constatação de que somos “ sujeitos de falta”.

Desde o princípio da vida , bebês necessitam da mãe para a interpretação de suas necessidades e para obterem um sentimento de validação . Desta forma , prosseguimos ao longo da vida ,dependendo do olhar do outro para a validação dos nossos sentimentos e pensamentos e para a confirmação da nossa existência . Necessitamos compartilhar partes significativas das nossas vidas com as outras pessoas .É uma etapa vital do nosso crescimento pessoal , da nossa saúde física e emocional .sentir se integrado ajuda a superar fracassos e perdas. Portanto , sofrer com a rejeição é mostrar que somos saudáveis.

O modelo de sociedade atual que construímos não está levando em consideração que somos seres gregários. O sociólogo Zygmout Bauman, a partir dos anos 2000, descreveu a “ Modernidade Líquida “ da sociedade pós moderna , onde as relações entre os indivíduos tendem a ser menos frequentes e menos duradouras. Em seu conceito de “ relações líquidas “ , as relações amorosas deixam de ter aspecto de união e passam a ser mero acúmulo de experiência. A insegurança seria parte estrutural da constituição do sujeito pós moderno A modernidade líquida descrita por Bauman pode ser vista como uma defesa contra o grande medo da solidão que assola a humanidade desde os seus primórdios .

“ A sós ninguém está sozinho,
É caminhando que se faz o caminho “
( Titãs )

Estamos mais sozinhos na era digital ? As redes sócias nos dão o tão almejado pertencimento ou são apenas uma miragem ?
A melhor resposta é que não sabemos ao certo. Medir solidão é muito difícil . O momento atual é de transição . Não sabemos ainda como navegar nesse novo mundo da era digital , intensificado pela Pandemia da Covid 19. As redes sociais , o uso das plataformas digitais , surgiram para suprir a carência gerada pela solidão , e tiveram seu uso exponencialmente aumentado em função da Pandemia.

A tecnologia digital tem sido fundamental para que suportemos o isolamento e o distanciamento social imposto pela chegada do SARS- Cov2 e inclusive para que vidas sejam salvas emocional e fisicamente .Vivemos no mundo paradoxalmente 100 % ( des) conectado É a “ solidão compartilhada”.

Neste sentido , é pertinente uma outra questão : usamos mais as redes sociais e as plataformas digitais porque estamos mais sozinhos ou ficamos mais solitários porque usamos mais a tecnologia digital ?

As duas alternativas são verdadeiras e interagem entre si. A geração Millennial ( 1980- 1990) e a geração Z ( 2000-2010) estão mais solitárias que a geração Baby Bomers (1945- 1954)?

Alguns autores pensam que sim.

Nas grandes e médias cidades os índices de solidão parecem mais elevados . É a chamada “ solidão aglomerada”.
Sintomas emocionais e físicos , podem ser causas e/ou consequências da solidão estabelecendo se um ciclo vicioso.que pode levar ao desenvolvimento de uma doença.

O professor Rodrigo Bressan da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, aponta que a solidão pode levar a um estado de alerta que libera substâncias químicas , como noradrenalina e cortisol , relacionadas ao estresse da hipervigilância que podem ser prejudiciais ao organismo a longo prazo e de modo contínuo . Entre os problemas físicos relacionados com a solidão estão : a obesidade, o aumento da pressão arterial , ,doenças cardiovasculares, a deficiência do sistema imunológico , o câncer. Entre as doenças e sintomas emocionais estão : a ansiedade , a depressão , o isolamento social ,o estresse pós traumático a insônia , o suicídio. Estudos recentes indicam uma redução da expectativa de vida em até 15 anos relacionada a solidão.

Um aspecto importante a se considerar é que sentimento de solidão é diferente de estar sozinho . O psicanalista Britânico Donald Winnicott em seu trabalho “ A capacidade de estar só “ ( 1957) considera que a solidão “ saudável “ é fonte de criatividade pessoal e possibilita ao indivíduo manter contato com o que há de mais secreto em seu universo psíquico . Ficar só é tomar consciência de que se é único e pressupõe uma condição emocional constituída com base na confiança na comunicação consigo mesmo e com o outro . Ainda segundo Winnicott, a capacidade de estar só não tem relação com a experiência de ficar só como acontecimento real e não diz respeito ao sentimento de solidão ou à angústia do isolamento . A capacidade de estar só proporciona um “ vazio cheio “ de possibilidades que precisa ser sustentado para o sujeito “ vir a ser”. Saber estar só pode ser extremamente construtivo e produtivo , importante para o amadurecimento e para a consolidação da personalidade . É preciso ter a companhia de alguém para que a capacidade de estar so seja conquistada , constituindo se este um paradoxo da natureza humana.

Portanto, aceitemos o sofrimento da solidão como parte inexorável da nossa biologia , do nosso psíquismo , sentimento pelo qual teremos que transitar em determinados momentos da vida . Que possamos desenvolver cada vez mais nossa capacidade de estar só , no sentido do amadurecimento emocional , da autoavaliação e do automonitoramento . Independente de estarmos sozinhos ou não.